Elizabeth de Castro e Pamela dos Santos se amavam com rara profundidade. A prima induzira Mindinho a escolher aquela e a trouxera consigo pra uma espécie de lua-de-mel remunerada, selando três anos de harmonioso convívio. Acabado o serviço planejavam residir em qualquer país onde lhes fosse permitido oficializar a união. Tinham-se um amor de beijar no trânsito, preenchendo a espera, incandescido na ternura feminina.
Reluzentes. Liz era morena toda de fundo indígena: leite condensado cozido. Pam, nigérrima, tal qual o bandido sem os anis, ou seja: uma boa carga de achocolatado à lata. Saltavam escotilha afora aos esfregões. Não às ferramentas de limpeza, pois destas jamais tocaram, escravizando-se noutros cabos. Toda a tripulação sabia da relação e ninguém desrespeitava.
Houve a luta inaugural a bordo.
Seis musculosos se revezaram, suando o excesso de anfetaminas. Demoliram-se e rasgaram-se naquela tarde, assim como nos poentes que sucederam o evento. Na raiva e na volúpia; na chuva e no sol. Apanhar gerava também abstinência e fraturar um membro seria como colocar outro no estaleiro. Quando recorriam à capela pra pedir força e fortuna, atentavam seus metafísicos ouvidores solicitando-lhes que os livrassem do azar e da fraqueza, pra não ficarem impossibilitados de lutar e, em conseqüência disto, sem sexo. Como este havia se tornado honra ao mérito, era-lhes proibido contato íntimo com as provedoras e o único meio de desfrutá-las era através de atos de bravura. Atassem-lhes os testículos ou ardessem-lhes os olhos, e tornar-se-iam touros espanhóis.
Cada qual espalhava ódio pra cinco lados, o que incitou alguns entreveros nas horas vagas e produziu brigas sem ônus qualquer fora a honradez. Algo como partida amistosa ou, no mínimo, rachão.
Já no placar oficioso: ao vencedor, orgasmos, razão e respeito; ao fraco, chacota, masturbação e trabalhos braçais como castigo. Como eram dois juízes, sem nocaute a igualdade prevalecia e redundava num pouco mais de barbárie. Prorrogação de olhos vendados sob centenas de outros atentos.
Tudo era resolvido no braço, encerrando ali, o assunto e a discórdia. Contudo, na primeira oportunidade, qualquer um deles atearia fogo noutro sem pestanejar. Mas aos azuis de Mindinho seria vacilo. A receita era nutrir-se tal glutão, treinar em absurdo e lutar intrepidamente.
As mulheres acostumaram-se ao ritual desumano, nas gargalhadas intermináveis da dupla de mediadores. No destino, algumas até gostavam da pancadaria. Outras se adaptaram na obrigação de servir-lhes após os duelos: inchados, remendados, doloridos.
Mindinho queria pisar em Cuba como quem desce a ladeira até chegar na Barata Ribeiro, mas aí reparou que o idioma local sempre lhe fora tabu. Esquivara-se todas as vezes que apareceram chances de conexão internacional. Com o auxílio ótico de Duda, ele fundamentara não cutucar o Tio Sam. Cruzar fronteira era - até então - fato inédito ao bandido, enquanto o da lei só fizera em pacotes semanais.
- Duda, como é que eu vou me virar nessa porra? Sei nada dessa língua. E usted, Duda, vai ter que me ajudar. - disse ressabiado.
- Segura tua onda, maluco. Tu tá cheio da grana e tem olho azul. Não vai demorar nem faltar pobre pra se oferecer e até beijar tua mão.
- Então, estamos contratando. Outra: não esqueça do Dieguito.
- Vou providenciar.
- Tem mais alguém que preste nessa terra?
- O barbudo.
- Que porra de barbudo?
- Fidel Castro.
- Parente da mulher da prima?
- Não, o ex-presidente daqui. Há meio século, mais ou menos. Comuna. Tomou a ilha na metranca. Acabou de encolher.
- Lembrei... Interessante, cada país com seu barbudo. Mas esse eu passo. Mais algum?
- Uma orla repleta de mulheres gostosas.
- Opa, também estamos contratando. Se com essas aí já temos um bom caixa, imagina juntando umas vinte? Tem outra letra! Remaneje aquela molecada dos serviços gerais e da cozinha pra segurança. Dome os tigres e dê arma pra todo mundo. Confiança não tem preço e esses vieram com a gente. Contrate pra cozinha e pra faxina. Mulher também! Quem não souber atirar, taí a hora de aprender. Sabe-se lá o que pode acontecer, esses otários não falam nossa língua.
- Pode deixar que eu armo a defensiva. Joga solto, meu dez.
- Duda, vamos ferver Cuba. Dinheiro não falta.
Dali, Mindinho foi rezar. Rogou luz a Oxalá, imunização a Ogum e atrevimento a Iansã. E tudo isso em dobro a Iemanjá. Manteve-se na capela durante um bom tempo - pedindo apenas, nunca lamentando ou implorando. Quem o via, não conseguia entender, mas o bandido precisava daquilo. Antes de sair, agradeceu a Iemanjá por conduzir Veneno pro purgatório, pela calmaria, pela fartura e pelas cenas hilariantes presenciadas no roteiro.
Em seguida, explodiu Gerson King Combo em abundantes decibéis, transformando a embarcação numa gigantesca pista de dança. Mindinho requebrou à exaustão no lado A da black music brasileira, aquele funk doutrora. Era feita a sua vontade.
Dia seguinte, Duda reuniu a tripulação e largou cem dólares por cabeça discursando:
- Sem porra-louquice! Sem falar pelos cotovelos. Bebidas e drogas, só aqui! Vacilou, vira bóia. Metade desce amanhã, metade depois. Quem ficar, guarda a casa. Quem for, favor não pisar na bola, só tá indo passear e comprar bugigangas. Nada de lero. Rato que rói corda, morre pendurado pela boca.
Dim quis deixar pro segundo dia, dando-se tempo de criar coragem pra implorar à avó que o levasse de volta pro Pavãozinho. Queria - de alguma forma - fugir do fantasma de Veneno. E no Pavãozinho poderia fingir que nada daquilo existiu. Além. Livrar-se-ia das terríveis lentes e manteria distância dos castigos e das atrocidades do pai.
Liz e Pam, as enamoradas, foram juntas e se presentearam: biquínis, adereços, cosméticos e um disco de rumba. Tiraram fotos em cabine - onde se entretiveram um bocado e tanto, comeram num pé sujo – entre carícias, e andaram de táxi se pegando sem discrição. Voltaram ao mar a nenhum, mas na maior satisfação cabível. Só não desertaram na oportunidade porque a ilha não era tolerável aos seus anseios.
Mindinho trajou a dez do manto sagrado e ancorou pleno, doente de curiosidade, pra fazer a festa do comércio local.
Comprou camisetas falsificadas, uma boina como Che Guevara, um pôster do Black Eyed Peas, um chaveiro Yo amo Habana; além de várias camisas com motivos havaianos, chinelos, bermudas, bonés, tênis Adidas e uma vastidão de discos de funk e rap. Câmera e filmadora digitais, um Rolex e cordões. Aproveitou pra tatuar no peito um cão de enomes garras e nervosos olhos azuis - o qual vertia sangue ao redor dos caninos numa boca famélica - como a retratar-se.
Duda providenciou conta em banco, celulares e jornais de lá e cá, a saber: Cuba, Estados Unidos e Brasil. Sabia da possibilidade de se refugiar por ali caso os anglo-saxões flagrassem algo. Também ouvira falar de Tijuana e decidira propor o México ao parceiro, pois tinha consigo a certeza da prosperidade financeira nas fronteiras, principalmente a transações esconsas.
Coragem não havia em Dim, que esmoreceu e nem cogitou regressar ao Rio de Janeiro. No intuito de anestesiar-se, comprou doces e brinquedos não-licenciados pela Disney, gastando o seu e o de Dona Nair. Esta quase nem chegou a provar das guloseimas, já que tudo aquilo durou poucas horas na mão do triturante moleque, que ainda babando, chorou quando acabou o estoque, quebrando também alguns Mickeys e Plutos distorcidos pra se acalmar.
Na volta, os mandatários da nau trouxeram mais duas mulheres, negras cubanas, pra encorpar o menu – deles, por ora. E abrir-se-ia uma semana cheia pra Duda, findando-lhe as férias. Inclui-se aí, o agendamento da visita ao Pibe D´Oro, outrora louro, roliço e agitado às ventas, hoje técnico de futebol.